Gabriela Leandro Pereira*

O FAZER POÉTICO-CRÍTICO COMO GESTO POLÍTICO:
UM ENSAIO SOBRE O TERRITÓRIO FRONTEIRIÇO

Memorial. Denúncia. Oferenda.

A entrega íntima, privada, familiar e também pública e coletiva que "Divisa" nos oferece, é marcada pela presença da terra e das águas amarronzadas que tomam conta das imagens, sons, movimentos e pausas por ela criada. Essa oferta afetiva e política, está situada no encontro com os atuais limites geopolíticos dos estados do Espírito Santo e Minas Gerais, onde anuncia um ritual que oscila entre um suposto retorno e um suposto encontro com o desconhecido. Guiada por caminhos re-velados em histórias espaciais imprecisas, "Divisa" segue um roteiro inacabado e dinâmico, montado a partir de pistas que se assentam em conexões interculturais e multilíngues, que não se pretendem traduções. É no encontro e no trabalho com as evidências memoriais, materiais e minerais, que seus processos de criação e conexão se realizam. Pontes, rios, inundações, edifícios elevados, casas arrastadas, cercas, demolições, filhas, netas, esposas e uma guerra são anunciadas no projeto sem apelo pragmático ou determinista. Do mesmo modo, o mar ausente e o crime ambiental em curso, traçam o horizonte poético-crítico de "Divisa", cuja forma vai sendo tramada no interior do extrativismo predatório que marca nosso tempo. A lama do rompimento das barragens atravessa os dois estados e suas águas contaminadas carregam cidades devastadas e estilhaços de vidas interrompidas. A divisa se alimenta de todas essas memórias contestadas e negociadas por gerações. 

 

Mas a divisa não é apenas constrangimento entre dois lados, ou terra arrasada pelas violências passadas e atuais. Humanos e não humanos habitam essa paisagem interespecífica, assombrada pelas velhas e novas hierarquias, inventando modos de assegurar o prolongamento da vida. Por vezes, nessas vidas inventadas, terra e pele se confundem, seja pela cor que vibra no movimento dos corpos, seja pelo modo como se inscrevem nesse chão em gestos quase místicos. Os diferentes tons terrosos, do marrom ao ocre, comunicam tanto as diferentes propriedades minerais e sedimentares que compõem as camadas dos solos percorridos, quanto a natureza multiétnica dos sujeitos geográficos que ali se fazem presentes.

 

Se a terra opera confusões e equivalências, o rio não se confunde com os demais seres viventes. Ao passo, ele se faz presente como opacidade, cujo mergulho não se recomenda se desconhecidas suas histórias submersas. No subterrâneo do mundo, as águas doces organizam um sistema hídrico controverso no qual é o vetor da infiltração que permitiu a ocupação, o genocídio e o cárcere dessas/nessas terras interiores, ao mesmo tempo em que se oforeceu como veículo de fuga, conduzindo para fora delas sujeitos movidos pelo desejo de des-captura, recomeço e liberdade. Terra e rio se encontram na divisa como testemunhas opacas para onde confluem a história e o tempo nesse território. 

 

A relação estabelecida pelo coletivo familiar nessas espacialidades fronteiriças, também se realiza na opacidade, no limite da compreensão possível entre os distintos Outros, onde o reconhecimento é uma obrigação moral, como nos ensina Édouard Glissant. Sob suas lentes, terra e rio voltam a se encontrar em algumas das paisagens percorridas e criadas, sugerindo sobreposições não usuais. O posicionamento estratégico da câmera diante da cena captura o corte brusco, quase ortogonal, no sítio profanado pela intervenção geometrizante do homem. Essa paisagem criada acomoda verticalmente terra e rio, em uma operação que inverte e contraria as lógicas gravitacionais nas quais a densidade e o peso de ambos demandariam um outro arranjo. 

Como ainda nos ensina Glissant, o reconhecimento do Outro é também um componente estético. Não é da ordem da transparência o que se cultiva nessa incursão com intencionalidades artísticas e investigativas, mas da ordem do contato, sem malabarismos. O contato como instância de abertura, tanto para possíveis identificações, quanto para evidentes estranhamentos, suscitam especulações de inspirações cartográficas sobre origens, itinerário e vinculações que esse coletivo familiar possa possuir com os territórios da divisa. Estrangeiros? Retornados? Visitantes? Herdeiros? Herança.

 

Talvez herança seja uma boa palavra para posicionar os testamentos e mapas ativados por uma sensibilidade cósmica, emergida no percurso e fixada em tecidos banhados pelas águas barrentas do caminho, como aquelas que correm se esquivando das pedras de aparências lunares em Baixo Guandu. 

Nesses fragmentos têxteis submersos, se o legado de exploração e conquista se inscreve organicamente na impressão opaca e terrosa, se inscrevem também as fugitividades e as artimanhas perecíveis e incontornáveis da sobrevivência. Não se encerra, portanto, o vislumbre por saídas poéticas e entradas que não sejam motivadas pela posse e expropriação. As formulações geográficas e ecológicas constituídas pelos atos narrativos criados em Divisa, delineiam o desejo de uma relação desalienada com a terra e seus entes. Como anuncia o pensador quilombola Nego Bispo, é na relação com os cosmos que conseguimos nos reeditar de forma sábia, pautada no respeito e na não agressão do território.

DIVISA - Ponto n˚ 10: Ponto 10: -19.507128, -41.014093

É importante situar ainda que a escrita desse diário de viagem com contornos memoriais se realiza isenta de excessos e menos ainda de traduções. Há sempre o risco do desgaste pretencioso da compreensão, que deduz, por equivalência, complexas e densas situações as quais não possui propriedade para fazê-lo. Em experiências viajantes de curta duração, a intensidade dos momentos tendem a colaborar com narrativas superlativas que se desejam maiores do que realmente são. É preciso olhar para Deriva abrindo mão de alguns fetiches e recusar o frisson da exotização, comumente presente em deslumbradas experimentações artísticas com inspirações etnográficas. Portanto, não fixá-la como projeção precisa ou oposição entre a lembrança e o estrangeirismo, mas como linhas de movimento geradas pelo contato e apreensão sensível e parcial da vida que se desenrola dentro e fora da fronteira, na interação desta experiência específica e das condições de sua realização. A potência de "Divisa" está no modo como esse coletivo triádico mobiliza as próprias opacidades, que o constitui, como condição para os posicionamentos éticos, estéticos e poéticos, que assumem e operam não como censura, mas como alimento para proposições artísticas que não renunciam em seu fazer poético-crítico o gesto político. Um salve às águas, às terras, às pedras, às matas e às gentes do território fronteiriço.

*Gabriela Leandro Pereira é professora e pesquisadora na Faculdade  de Arquitetura da UFBA, onde coordena o Grupo de Estudos Corpo, Discurso e Território. É conselheira da Casa Sueli Carneiro e co-fundadora e integrante da Coletiva Terra Preta Cidade. Atualmente realiza o pós-doutorado no Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo na UFES (Vitória-ES).

ALI O SOLO NÃO É APENAS TERRA,
O RIO NÃO É APENAS FLUXO

Flavia Gimenes*

Gabriela Leandro Pereira*

DIVISA - Ponto n˚ 7: -18.842243, -41.241175

O enquadramento do vídeo mais parece uma pintura [1].

Pintura de pigmento denso, terroso, quase palpável, disposto em camadas horizontais de barro com grafias distintas, umas sobre as outras, de onde esparsos arbustos verdes brotam, contrastando com o vermelho da terra. Embaixo, um rio amarelo e barrento ocupa quase a metade da tela. O “still” só revela sua dimensão volumétrica quando um corpo desponta do lado esquerdo da imagem e inicia uma caminhada em linha reta, ao longo da margem do rio, até sair de vista.

O corpo que passa é um corpo feminino. Corpo de mulher negra que se aventura a caminhar com ritmo próprio sobre uma linha quase imaginária, linha divisória de instâncias de existência.

O rio espelha os movimentos da mulher que percorre sua margem. São então dois os corpos que vagueiam: um físico e o outro, imagem refletida. A mulher não para diante de seu reflexo. Ela simplesmente segue, alheia. Ainda que hesite brevemente prestes a sair de cena, ela não olha para trás. Corpo e imagem não aparentam estar sincronizados. Há um estranho (ainda que ínfimo) atraso no reflexo, o suficiente para capturar a atenção de quem se dispõe a observar.

 

Corpo que caminha,

passeia,
hesita.
E persiste.

Parece flutuar no espaço, invisível.

Na margem:
à margem?
Na superfície.

Nas profundezas.

 

 

A ação dura pouco menos de um minuto e no entanto, naquele instante cabe tanto. A caminhada silenciosa, delicada e íntima de Rubiane Maia reflete a necessidade da artista de sentir sua pele tocando o solo. O solo, por sua vez, imprime de vermelho os pés descalços da artista, como se acolhesse o desejo de Maia de reconhecer nessa travessia a linha divisória que dá título ao projeto.

Filmado no município de Mantenópolis, ES, o vídeo é parte de “Divisa” (2022), projeto que consiste em percorrer de carro a linha divisória entre os estados do Espírito Santo e de Minas Gerais, no intuito de realizar uma cartografia de imagem e de memória com vídeos, fotografias com dispositivos 360˚ e registros de ações performáticas em locais escolhidos de maneira espontânea, ao longo do trajeto. Nascida em Caratinga-MG, Rubiane Maia imigrou aos três anos de idade para Vitória-ES com os pais, também mineiros, que buscavam melhores oportunidades de trabalho. O retorno à terra natal e aos vínculos familiares-afetivos seria realizado de modo frequente ao longo de quinze anos, primeiro de trem, pela Ferrovia Vitória-Minas, e mais tarde de ônibus, pela Rodovia BR-262.

Em “Divisa” (2022) Rubiane Maia reocupa a paisagem capixaba de fronteira em busca do estranhamento de outrora, de quando via a paisagem pela janela do trem. Se antes a viagem era feita com seus pais e irmã, em “Divisa” a artista vai acompanhada de seu marido e de seu filho. Nesse sentido, é possível dizer que a travessia acontece em dois tempos: o tempo interior, de retomada de contato com a paisagem de origem e com os ecos da memória, e o tempo presente, que não pertence ao passado e nem ao futuro, posto que é instante e sujeito ao acaso, abrindo espaço para a construção de novas memórias.

*

 

 

Conheci Rubiane Maia no último dia de sua performance no Sesc Pompeia, em São Paulo, por ocasião de Terra Comunal, exposição proposta por Marina Abramovic em que a artista iugoslava selecionou um pequeno grupo de artistas brasileiros que performariam ações inéditas. Maia foi uma das selecionadas. Sua performance, “O Jardim” (2015), consistia em plantar e cultivar um jardim de plantas germinadas a partir de grãos de feijão em espaços não-usuais: os vãos mezaninos da biblioteca. O espaço menor, de aproximadamente 3m x 3m, que poderia ser qualquer coisa ou não poderia ser nada, posto que era de passagem, entre pavimentos, antessala suspensa num salão de pé direito alto que carecia da intimidade da escala humana, foi primeiro esvaziado de suas cadeiras e mesas e depois coberto por terra, até que as mudas de feijão fossem plantadas, uma a uma, pela artista, e cuidadas por ela com água e luz ao ao longo dos dois meses de duração da performance.

No ano seguinte, em Londres, passei a acompanhar seu trabalho e sobretudo a sua transição como imigrante e depois como mãe. O puerpério longe da família materna, a adaptação ao novo clima, o aprendizado de novo idioma e por fim, a mudança para Folkestone, no sul da Inglaterra. Cada fase apresentou um desafio, mas provavelmente o maior deles foi a questão de identidade. E como artista cujas experiências pessoais são disparadoras de reflexões a serem trabalhadas em sua prática artística, ver-se em novo terreno sem instrumentos de navegação, condição de estrangeira e de mãe adicionadas à condição de artista despertaram em Maia a necessidade de reorientação. De reaproximação às suas origens geográfica e autobiográfica. De investigação dos elementos marcadores de diferenças culturais e da paisagem que carrega no corpo. De retorno ao ponto zero, como se lá, na primeira fronteira, ela pudesse recalibrar sua bússola interna.

“Divisa” funciona portanto como um oxímoro: é desvio, retorno e ponto de partida. E nesse nó, nesse emaranhado de paradoxos, como compreender a interrelação entre conceitos aparentemente contraditórios?

O encontro do corpo com a paisagem é tema frequente na produção de Rubiane Maia. Performances realizadas em ambientes urbanos, como “Onde qualquer um vê” (2016), e em meio à natureza, como “Baile” (2015) caracterizadas por ações diminutas, por vezes imperceptíveis, dependem de registros em vídeo em alta-exposição que funcionem como olhar acessório para captura do não visto, do que passa despercebido. Como por exemplo a delicadeza com que Maia se coloca na paisagem ao imitar o crescimento diário das mudas de feijão que bem lentamente se inclinam em direção à fonte de luz. Ao performar, a artista se coloca à beira, no limite das experiências — quase não se compreende, enquanto observador, o que está acontecendo. Há um não-dito provocado pela sua presença furtiva, sorrateira, quase invisível. Seu corpo se deixa estar, se funde com a paisagem. Corpo-como-paisagem.

Estar na paisagem em tempo presente, atenta aos movimentos. Responder requer atenção ampliada aos mínimos efeitos, vistos apenas quando nos situamos e nos colocamos presentes, em atitude de espera por acontecimentos, por pequenos milagres ao se constatar que o mundo e a vida continuam, independentemente. Estar na paisagem é experiência de humildade, de entrega e de maravilhamento com a vida que se dá em plena vista mas nem sempre somos capazes de ver. Vem daí o impulso (ou a necessidade) das ações de longa duração: testemunhar o mundano com o próprio corpo, com os próprios olhos, com a própria pele. A natureza em seu ritmo inequívoco.

“Divisa” propõe uma ruptura com as práticas anteriores da artista. Ainda que os planos parados se mantenham por questão de praticidade em relação ao terreno acidentado e pela escolha instintiva dos espaços a serem ativados, os tempos são outros. Outros equipamentos, como os de registro panorâmico 360o, são requisitados. “Divisa” é portanto desvio porque se afasta formal e conceitualmente das performances de longa duração de outrora, como visto no vídeo filmado em Mantenópolis, em que a ação dura pouco menos de um minuto.

*

A ação dura pouco menos de um minuto. Outro elemento chama a atenção nesse desvio: Maia não performa mais sozinha. Ela agora carrega (ou equilibra?) papeis que se sobrepõem de modo quase simultâneo: de artista e de mãe. Possivelmente seja essa a origem do atraso sincrônico involuntário percebido no vídeo, no qual as mulheres se dividem na margem do rio. (Será possível conciliar essas duas facetas, artista e mãe?) Até então a artista mergulhava na paisagem e se deixava afetar pelo tempo que fosse, mantendo-se aberta ao acaso, às provocações que por vezes modificavam a intenção original do trabalho. Contudo em “Divisa” as ações são mais breves. Elas acontecem nas brechas, nas fissuras; nos intervalos em que é possível parar o carro e realizar ações. Em “Divisa” as ações são marcadas por interrupções.

Ser artista e levar a cria junto.

“Divisa” opera também como retorno. Percorrer a fronteira com seu filho reproduz em certa medida a travessia que Maia fazia com seus pais. Antes filha, Maia agora é mãe e desse novo ponto de vista observa a mudança de paisagem vista da janela do carro junto a seu filho, num processo de retorno à própria experiência de infância que se desdobra em transmissão. Ao compartilhar o percurso pela divisa interestadual com seu filho, Maia passa adiante suas experiências e memórias afetivas. E enquanto a artista recria as fantasias de criança, seu filho desenha, completamente envolvido e absorto com a experiência da viagem.

Arte e vida se entrelaçam e se confundem.

Existe linha divisória entre uma e outra?

Por quê não pensar “Divisa” como uma linha contígua e consecutiva, que costura experiências vividas e imaginadas, ações e intenções, viagens e planejamento, pausa e movimento? A prática de Rubiane Maia incorpora obra e processo sem distinção. Bordas que borram. Tudo entra. Tudo é trabalho. As ações mínimas, perceptíveis a conta-gotas, já faziam parte da natureza do trabalho da artista. Em “Divisa” ela apenas decompôs as ações no tempo-espaço a partir de cortes secos, entremeando gestos, materialidade e subjetividade. Terra, galhos secos, chuva, rio, desenho, graveto, janela, margem, rocha, barragem, raiz aérea, curva de estrada, mapa,gente,cidade, céuazul,rabisco,plantação,nuvem,diáriodebordo,algodão cru, vozes e sussurros. Imagem parada, imagem em movimento. Em performances anteriores, como “O Jardim”, estávamos diante de ações contínuas e por isso não víamos muito. Em contrapartida, “Divisa”, com ações interrompidas e peremptórias, escancara o método, as mudanças de plano e de ritmo que traduzem novo ciclo de trabalhos.

 

O carro na estrada
Transitar pelos vilarejos
e parar para conversar com as pessoas, ouvir suas histórias.

Avistar um local Parar o carro

Descer um a um: Rubiane, Manuel, Tian. Avaliar o terreno
Propor a ação.
Ajustar a câmera: “É pronto!” [2]

Caminhar sobre o barro Estar
Observar
Parar

Hesitar
Duvidar
Cochichar no ouvido da mãe

 

Rubiane Maia expande a noção de performance com esse estar simples, mundano e corriqueiro do corpo na paisagem, de corpo atento e paciente, de tal forma que não podemos distinguir estar de não-estar em performance. Existir, para a artista, é um ato de performance.

“Divisa” funciona ainda como ponto de partida de novos modos de fazer artístico. Ser mãe e artista (especialmente artista da performance, cuja matéria prima é o corpo e a paisagem) é saber aceitar, agregar, reacomodar outras intensidades e instâncias de ser, de pensar e de produzir arte num espaço de tempo circunscrito às volições e fisiologias do outro (outros) que a acompanham.

 

Pausa para ir ao banheiro
Pausa para brincar com o baldinho de areia (na terra)

Pausa para tomar um suco
Pausa para caminhar ao longo do rio
Pausa para conversar com as pessoas
que habitam as casas da fronteira

 

Pausa para bater a terra vermelha
que tingiu a roupa branca da performance

 

Pausa para fazer pintura com os pigmentos brutos de argila,

com os gravetos do solo,
com os veios do banco do rio,
com a água da chuva.

Pausa para se recolher da chuva que cai.

 

As ações performáticas em “Divisa” incorporam todos membros da família, ainda que estejam atrás da câmera. Essa é uma empreitada coletiva e familiar desde o início, da concepção do projeto à vontade de se colocar de novo na paisagem capixaba, do planejamento à viagem iniciada em Folkestone, Inglaterra, onde residem, até para lá retornarem. Os viajantes de agora vêm de mais longe, eles ampliam a noção de ser imigrante e de transpor fronteiras. A viagem fica mais complexa e envolve outros meios de transporte, sobrevoos, deixa de ser meramente terrena. Vem daí, penso, a necessidade de Rubiane Maia colocar os pés descalços no chão e de sentir a margem do rio na própria pele. Como se a linha divisória fosse algo físico que pudesse imprimir no corpo, manipular. Estaca zero: ponto de partida.

Fronteiras são linhas imaginárias que se modificam a depender do tempo, da legislação, da descrição, da memória. Fronteiras naturais como montanhas, rios e mares demarcam limites geográficos ainda que sejam móveis, conforme o pulso da natureza ou das mudanças climáticas, como a fronteira entre Itália e Suíça demarcada a partir da linha d’água dos Alpes que se movem de tempos em tempos. Fronteiras são sobretudo arbitrariedades políticas e burocráticas; nem sempre respeitam o modo de vida dos habitantes locais, tornando-se zonas de insegurança e de conflito que empenham e se prolongam por gerações.

Colocar-se com os pés descalços na fronteira: um ato corajoso.
Reencontrar a paisagem: do desejo de estar ao gesto em si.
Desse encontro à margem, remexer as suas bordas, os seus limites e origens enquanto indivíduo. Evocar as memórias das profundezas da terra e entrar em contato com as vulnerabilidades que edificam, que impedem e que movem corpo e paisagem. Ali o solo não é apenas terra, e o rio não é apenas fluxo.

Xangai, verão de 2022.

NOTAS

[1] "DIVISA [Ponto n˚. 7 / -18.842243, -41.241175] Vídeo, HD 16.9, estéreo, colorido, 2022", de Rubiane Maia.

[2] “É pronto!” Expressão dita por Tian, filho de Rubiane Maia, na versão não editada de "DIVISA [Ponto n˚. 7 / -18.842243, -41.241175] Vídeo, HD 16.9, estéreo, colorido, 2022". Ao dizer “É pronto!” Tian avisa a mãe que a câmera foi ajustada, e é hora de iniciar a ação.

*Flavia Gimenes atua de forma múltipla no campo das artes, no Brasil e no exterior. É professora de História da Arte em Xangai, China, pesquisou a obra de Maria Martins durante MA em escrita no Royal College of Arts em Londres, Reino Unido, e foi co-fundadora, curadora e diretora artí­stica do Elefante Centro Cultural, em Brasília-DF.