DIVISA

Sobre o Projeto > Traços Conceituais > Ações Artísticas

Divisa é um projeto artístico que aborda as relações entre memória, corpo, território e imagem a partir de uma experiência de deslocamento pela demarcação que une/separa os estados de Minas Gerais e Espírito Santo [1]. Motivada por suas próprias lembranças de travessia (originadas pelo nascimento nas Minas, os primeiros anos de vida em uma cidade da divisa, e o crescimento no Espírito Santo), Rubiane Maia se propõe a percorrer essa linha imaginária junto com seu companheiro Manuel Vason, e filho Tian. Ao longo de 20 dias consecutivos, eles viajam toda a divisa, partindo do ponto tríplice entre ES/MG/BA próximo a cidade de Montanha (ES) até chegar na região da Serra do Caparaó, no sudoeste do Espírito Santo. O objetivo era ir descendo, e ao mesmo tempo, elencando pontos acessíveis de parada em locais designados como limite territorial entre os dois estados, fossem eles, indicados por sinalizações oficiais nas rodovias, mapeamento via satélite ou simplesmente apontados pela população local. Durante essas paradas, os três trabalhavam para produzir marcos simbólicos em forma de ações artísticas, provocando exercícios de intimidade e contato com a paisagem.

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MINAS GERAIS

ESPÍRITO SANTO

TRAÇOS CONCEITUAIS

 

 

Como mineira nascida na cidade de Caratinga, no interior leste de Minas Gerais, mas radicada desde os três anos de idade no Espírito Santo, Rubiane carrega consigo inúmeras lembranças do seu deslocamento pela Ferrovia Vitória-Minas [2] e, também, pela Rodovia BR-262 que liga ambos estados. Um trânsito que surgiu pelas constantes visitas às cidades de Aimorés e Caratinga, nas Minas, nas quais, até hoje residem uma boa parte de seus familiares. Dentre os afetos que se mantiveram até a vida adulta, a sensação de ter experienciado essas viagens como um tempo expandido, entrecortado por rostos desconhecidos e paisagens rurais, que se alternavam entre contornos nítidos e borrões diante do quadrante da janela. A pele acinzentada e brilhante pelo pó de minério de ferro; as pedras arremessadas na direção do trem em Flexal; os biscoitos de polvilho gigantes das mulheres de Piraqueaçu; a parada mais longa em Colatina; a cor de caramelo do rio Doce; o sol escaldante de Aimorés.

 

Tempos depois, consciente de que sua prática artística se fundamenta a partir de questões autobiográficas em contextos que envolvem pesquisa, imersão e residências artísticas, Rubiane se vê motivada a adentrar essa zona do 'entre' que perpassou toda a sua infância e juventude. Porém, compreende que já não se sustentaria provocar apenas uma repetição do movimento de ir e vir de uma cidade para outra, cruzando os mesmos limites de outrora. Hoje, dentre os aspectos que lhe são caros está a complexidade que envolve as noções que erguemos sobre separação e pertencimento. Uma ótica que vai ao encontro do seu próprio lugar de fala, alicerçado em um corpo negro e diaspórico, resultado de processos históricos brutais que antecedem o seu próprio nascimento. Certamente, trata-se de um projeto que leva em conta o legado da escravidão e os buracos que se formaram na linhagem de descendentes de escravizados, transportados para o Brasil como uma mercadoria sem passado ou história. Por isso, o desejo e a escolha por percorrer (e não somente, cruzar), a linha entre seus dois estados natais. Um argumento que cria a oportunidade para se aproximar fisicamente desta cisão que é política, mas que se assenta sobre um contexto geográfico. Uma demarcação que começa a ser construída desde o período colonial, quando tudo era só capitania [3]. Para a artista, percorrer a divisa, dentre outros fatores, significa estabelecer contato com uma faixa territorial que sustentou muita violência, numa lógica de poder e estratificação do território, e ao mesmo tempo é a responsabilidade por resgatar os resíduos da sua própria história pessoal e familiar.

 

Não, não existe narrativa neutra ou história única, então, o que o projeto propõe se dá no ato de puxar o fio de algumas memórias pessoais para deixar sobressair o emaranhado, os nós. Dentre as escolhas certeiras, o desejo de trabalhar a céu aberto em contato com a paisagem, e primordialmente com o elemento terra na sua potência material e simbólica. Sim, são ações que versam sobre a memória, mas não necessariamente sobre o passado. O que nasce agora surge do diálogo direto, por vezes ritualístico, entre o corpo e a terra, regidos pelas forças da vida e do acontecimento. De vez em quando, se acaricia com atenção e cuidado o inefável daquilo que um dia cruzou por esses mesmos lugares, sabendo de antemão que há muita coisa valiosa enterrada nas camadas do solo. Há terra, há poeira, há raízes. Mas, também, há rios, pedras e chuva. Há pigmentos, há texturas e cores terrosas. E também, corpos que se afetam entre a linha tênue do que seria vida, trabalho e brincadeira. Há surpresas, estranhamentos. E também, encruzilhadas e incertezas. E ainda, há entidades guias, testemunhas e pessoas. E acima de tudo, há o que não poderia ser revelado ou explicado em palavras.

NOTAS

[1] Contexto Geográfico: o Espírito Santo é um dos 27 estados do Brasil e está localizado na região Sudeste, fazendo divisa com o oceano Atlântico a leste, com a Bahia ao norte, com Minas Gerais a oeste e com o estado do Rio de Janeiro ao sul. Sua área é de 46 077 km 2. Seu território possui duas regiões naturais distintas: o litoral - que se estende por 400 km - e o planalto. Ao longo da costa Atlântica encontra-se uma faixa de planície que representa 40% da sua área total, e à medida que se penetra em direção ao interior, o planalto dá origem a uma região serrana, com altitudes superiores a 1.000 metros. Como é o caso do Pico da Bandeira, que com 2.892 m é o terceiro ponto mais alto do Brasil. O principal rio do Espírito Santo é o Doce, com 977 km de comprimento. Ele nasce nas Minas Gerais, cruza o Espírito Santo e deságua no oceano Atlântico.

 

[2] Estrada de Ferro Vitória x Minas: as origens da Estrada de Ferro Vitória a Minas remontam a 1874, quando o Governo Imperial criou uma comissão para a construção de uma linha férrea que ligasse o porto de Vitória, no Espírito Santo, a Natividade (renomeada Aimorés em 1910), na divisa com Minas Gerais. Apesar de seu objetivo inicial ser a exportação da produção cafeeira e madeireira da região do Vale do rio Doce, a ferrovia logo tornou-se uma estrada de penetração no território nacional, constituindo o principal pólo de geração de riqueza e desenvolvimento na região. Muitas foram as cidades que se formaram em torno dos trilhos do trem, ato que também contribuiu para o desenvolvimento rápido de tantas outras pequenas cidades, ligadas pela rede ferroviária mineira. Além do transporte de cargas, a Estrada de Ferro Vitória a Minas é a única ferrovia brasileira que realiza o transporte diário de passageiros, ligando Vitória a Belo Horizonte. Ela margeia os rios Doce e Piracicaba, em Minas, até chegar ao litoral capixaba (ou vice- versa), a viagem de trem Minas-Vitória é recortada por paisagens rurais repletas de montanhas e Mata Atlântica. De certo modo, a ferrovia tornou-se um símbolo da industrialização e da chegada da modernidade no Brasil.


[3] Período Colonial: os estados do Espírito Santo e Minas Gerais como espaço territorial legalmente delimitado, existem desde que os portugueses começaram o processo de colonização do Brasil. No entanto, ambos tiveram seus percursos de desenvolvimento histórico, cultural, social e político delineados por questões completamente diferentes, numa relação complexa e, por vezes, ambivalente. Segundo alguns pesquisadores, dois fatores foram decisivos para que o Espírito Santo permanecesse intocável por bastante tempo: a presença e a forte resistência indígena em seu interior, e a descoberta do outro nas Minas Gerais, que bloqueou a possibilidade de abertura de rotas alternativas entre o litoral e as minas. Considerando que a coroa portuguesa queria, a todo custo, controlar o escoamento da mineração de ouro e diamante somente pela Estrada Real. Essa situação foi se modificando em meados do séc XIX com a expansão da cultura do café.

AÇÕES ARTÍSTICAS

 

Ao longo de 20 dias consecutivos Rubiane Maia, Manuel Vason e Tian, de quatro anos de idade, percorreram a linha da divisa juntos, não somente como uma família, mas como colaboradores de um processo intensivo de descoberta e investigação. Numa organização cotidiana que previa o deslocamento e a chegada ao próximo local dia após dias, as performances iam se configurando através de conversas frequentes e do encontro com o inesperado ao meio do caminho. Dentre as surpresas, a cumplicidade e o envolvimento do pequeno Tian, que por vezes se colocava no papel de guia, provocando intervenções importantes que tornaram o fazer artístico mais fluido e intuitivo. De certo modo, o método de trabalho foi se estruturando no exercício do fazer, algo que poderia ser comparado às atividades manuais, quando a repetição e o empenho acabam propiciando a criação e a manutenção de um repertório de gestos, elementos e materiais afins. Nesta experiência, todos se alternavam entre estar na frente e atrás das câmeras durante as ações, quase sempre documentadas através de fotografias e vídeos. Para além de uma câmera comum, um dispositivo de 360 ̊ graus, algumas vezes operado para capturar não somente o ato performativo, mas todo o entorno da divisa num formato panorâmico.

A cada dia novos caminhos, a cada parada, um novo marco. Um indicativo em forma de ação, sempre em continuidade, movimento. Rodovias, vielas, barrancos e estradas de chão. Rios, esgotos, poças, crateras e margens. Montanhas, campos, pedras e fazendas. Cidades, ruas, calçadas, pontes e quintais. Lugares povoados e ermos. Conforme iam descendo, a divisa ia se metamorfoseando em múltiplas faces. Conforme iam descendo e acionando, seus corpos iam se convertendo num prolongamento da terra em cor, textura e densidade. Uma exterioridade que pode ser facilmente notada quando se observa o uniforme dos três, no qual, o branco do tecido vai dando lugar aos tons terrosos, tingidos gradualmente pela pigmentação vibrante do solo [4]. Camadas de ocre, alaranjados, marrons, beges, vermelhos, rosas e roxos. Há que mencionar, ainda, o quão recorrente foram as ações realizadas com grandes tecidos de lona crua estendidos no chão. Um ritual de passagem, um ritual dos que passam pedindo licença para recolher os resíduos de memórias soterradas ou não humanas. Logo, como pertencer não é tomar para si, o que as mãos carregam e o que a vista alcança são partículas, manchas, sobreposições. Ou apenas, pintura.

INFORMAÇÕES TÉCNICAS

 

 

Título do Projeto: Divisa

Plataforma: Instalação Virtual / Website

Proponente do Projeto / Artista: Rubiane Maia

Processo de Criação / Residência Artística [Viagem]: Rubiane Maia, Manuel Vason e Tian Maia Vason

Acompanhamento Curatorial: Lindomberto Ferreira Alves

Interlocutores Convidados: Gabriela Leandro Pereira e Flavia Gimenes

Imagens [Vídeo, Fotografia e Dispositivo 360˚]: Manuel Vason

Material Educativo / Organização: Lindomberto Ferreira Alves & Rubiane Maia 

Material Educativo / Colaboradores: Elton Panamby, Jamile Cazumbá, Maria Luiza de Barros, Renata Segatto e Tatiana Rosa

Tradução: Tom Nóbrega

Produção / Design: Rubiane Maia

Parceria: Galeria Matias Brotas Arte Contemporânea

Ano de Lançamento: 2022

Projeto Divisa © Rubiane Maia 2022

Todo o conteúdo pertence a © Rubiane Maia 2022. Por favor, não reproduza nenhum conteúdo de imagem ou vídeo deste website sem o consentimento expresso por escrito de Rubiane Maia. No caso dos textos, nós permitimos a reprodução do conteúdo textual em parte ou no todo, desde que seja sempre citada a fonte e o autor e sem fins comerciais.

Apoio: Edital Setorial de Artes Visuais 020/2020 – Eixo 2: Projeto de formação, pesquisa, intercâmbio, registro e memória.

Secretaria de Cultura do Estado do Espírito Santo – SECULT/ES

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DIVISA / BORDER

About the Project > Conceitual Features > Artistic Actions

English Version translated by Tom Nóbrega

 

Divisa (Border) is an artistic project addressing the relationship between memory, body, territory and image journey throughout the boundary which at once unites and separates the states of Minas Gerais and Espírito Santo*. Driven by her own early memories of crossing this border, Rubiane Maia decided to embark on a journey through this imaginary line accompanied by her partner Manuel Vason and her son Tian. Though Rubiane was born in Minas Gerais, she spent her first years of life living in a city situated on that border, and grew up mostly in Espírito Santo. Over 20 consecutive days, Rubiane, Manuel and Tian travelled through the entire border, starting at the triple boundary between the states of Espirito Santo, Minas Gerais and Bahia, near the town of Montanha (ES), and finishing their journey in the region of Serra do Caparaó, in the south-west of Espírito Santo. Their aim was to go downhill while finding accessible stopping points in places designated as borders between the two states, either indicated by official road signs, found through satellite mapping or simply pointed out orally by the local population. During these stops, the trio would perform artistic actions in order to create

symbolic landmarks, proposing exercises to generate intimacy and contact with the local landscape.

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MINAS GERAIS

ESPÍRITO SANTO

CONCEPTUAL FEATURES

Born in the city of Caratinga, in the east of Minas Gerais, Rubiane Maia settled in Espírito Santo when she was three years old. Many of her memories involve travelling along either the Vitória-Minas Railway* and the BR-262 highway, both of whom are pathways linking the two neighbouring states. Throughout her early years, there were constant journeys from Vitoria, the capital of Espírito Santo, where she lived most of her childhood and adolescence, to the smaller cities of Aimorés and Caratinga, in Minas Gerais, where a good part of her family still lives until today. These trips, whose affective reminiscences remained until adulthood, have somehow been experienced as an expanded time, during which unknown faces and rural landscapes were interspersed in between the sharp outlines and blurred visions envisioned through the window frame. The skins becoming greyish and shiny from the iron ore dust; the stones being thrown in the direction of the train in Flexal; the Piraqueaçu women and their giant powdered biscuits; Colatina, where the longest stopover took place; the Doce River and its caramel colour; Aimorés and its scorching sun.

Some time later, as she becomes aware of her artistic practice being based on autobiographical questions, emerging mostly in contexts involving research and immersion, such as artistic residencies, Rubiane finds herself motivated to approach the 'in between’ zone between provinces which permeated her entire childhood and youth. She realised, however, that it would not be such a consistent proposal simply to repeat the movement of coming and going from one city to another, crossing the limits of the provinces in the same way as before. Nowadays, one of the issues she is invested in is the complexity involved in our notions of both separation and belonging. This perspective addresses her own place of speech, (a philosophical concept developed by the philosopher Djamila Ribeiro taking as a reference point the so-called standpoint theory), is a point of view grounded in the experience of a black, diasporic body, emerging as a result of brutal historical processes that precede her own birth. This project certainly takes into account the legacy of slavery and the many holes that were opened throughout the lineage of descendants of the enslaved people who were transported to Brazil as a commodity, which as such could have neither past nor history. Hence the desire and the choice to travel through, and not simply to cross, the dividing line separating the two provinces from which she comes from. Such an argument creates the opportunity to physically approach a political split emerging from a geographical context. The demarcation between different provinces throughout Brazil emerged during colonial period, when the entire territory was divided in the so called “capitanias”*, arbitrary divisions of land established by Portuguese rule. For the artist, crossing the border between Espirito Santo and Minas Gerais is an attempt to at once establishing contact with a territory that has sustained much violence, due to the coercitive logic of power which stratified this territory, while at the same time taking the responsibility of rescuing the residues of both her own and her family's personal history.

Since there is no neutral narrative, there is not a single story, this project proposes an act of pulling the thread of some personal memories so as to let their entangled quality, their knots, to stand out. There was a clear desire to work in the open air, in contact with the landscape, and more than anything to connect with the earth element in all its material and symbolic potency. Though these actions deal with memory, they are not necessarily concerned with the past. What is born now emerges from a direct, often ritualistic dialogue between body and earth, governed by the forces of life and happenstance. Every once in a while, one caresses with attention and care the ineffable dimension of that which once crossed these very places, knowing in advance that there are precious things buried under the layers of this soil. There is earth, there is dust, there are roots. There are rivers and stones and rain. There are pigments, textures, and earthy colours. There are bodies affecting each other throughout the fine line of something we could either call life, or work or play. There are surprises, there is strangeness. There are also crossroads and uncertainties. There are guiding entities, there are witnesses, there are people. But above all, there is that which could not be neither revealed nor explained in words.

NOTES

[1] Geographic Context: Located in the Southeast region of Brazil, bordered by the Atlantic Ocean to the east, the provinces of Bahia to the north, Minas Gerais to the west, and Rio de Janeiro to the south, Espírito Santo is one of the 27 Brazilian provinces, with an area of 46 077 km2. Two distinct natural regions can be recognized in this territory: the coastline, stretching for 400 km, and the plateau. Along the Atlantic coast, there is a strip of plains accounting for 40% of the total area of the entire province. As you move inland, the plateau gives rise to a mountainous region, whose altitudes can surpass over 1,000 meters. Such is the case of Pico da Bandeira, a mountain which, with 2,892m of height, is the third highest point in Brazil. The main river in Espírito Santo is Rio Doce, whose length amounts to 977 km: it originates in Minas Gerais, crosses the province of Espírito Santo, and flows into the Atlantic Ocean.

[2] Vitória-Minas Railroad: The origins of the Vitória-Minas Railroad date back to 1874, when the Imperial Government created a commission order to build a railroad connecting the port of Vitória in Espírito Santo to the city of Natividade (renamed Aimorés in 1910), on the border with Minas Gerais. Although its initial aim was to export coffee and wood produced in the Rio Doce Valley region, the railway was soon to penetrate into the national territory, turning into the main center of wealth generation and economic development in the region. Many of the local cities were formed around the railroad tracks, and many other villages would undergo a fast development once they were connected through the railroad network of Minas Gerais. In spite of its main focus being cargo transportation, the Vitória-Minas Railroad, connecting Vitória to Belo Horizonte, is the only Brazilian railway to transport passengers daily. Running along the Doce and Piracicaba rivers, in Minas Gerais, until reaching the Capixaba coast, the Minas-Vitória train trip cuts through rural landscapes full of mountains and through the Atlantic Forest. To a certain extent, this railway became a symbol of industrialization and the arrival of modernity in Brazil.

[3] Colonial Period: The provinces of Espírito Santo and Minas Gerais have existed as legally delimited territorial spaces since the beginning of the Portuguese colonization of Brazil. Their historical, cultural, social, and political development was, however, circumscribed by completely different issues, and their relationship was a complex, often ambivalent one. According to some researchers, two decisive factors allowed Espírito Santo to remain untouched for a long time: the presence of strong indigenous resistance in its interior, and the discovery of gold in Minas Gerais. Since the Portuguese crown wanted, at all costs, to control the flow of gold and diamond through the Estrada Real, they blocked the possibility of opening alternative routes between the coast and the mines. This situation would change only in the mid-19th century, with the expansion of the coffee culture.

ARTISTIC ACTIONS

 

 

For 20 consecutive days Rubiane Maia, Manuel Vason and their four-year-old son Tian travelled together across the border. Throughout an intensive process of discovery and investigation, they would act not only as a family, but as creative collaborators. Since their organisation was done day after day, as they were travelling and arriving at the next location, the performances took shape through frequent conversations and unexpected meetings along the way. Amongst the surprises brought about by the journey, there was the complicity and the involvement of little Tian, who would sometimes act as a guide, provoking important interventions that would make the artistic process more fluid and intuitive. To a certain extent, we could say that their working method was developed in the very exercise of doing, in an unfoldment that perhaps could be compared to what happens when one performs manual activities, in which both repetition and effort end up creating and maintaining a repertoire made of gestures, natural elements and related materials. During the actions, which were almost always documented through photographs and videos, the participants would alternate between being in front of or behind the cameras. At times, besides an ordinary camera, a 360 ̊ omnidirectional device would be operated, so as to capture not only the performative act itself, but also the entire surroundings of the provincial border, shot in panoramic format.

Every day brought new paths, every stop there was a new landmark. Signs became actions, always leading to continuity, to movement. There were roads, there were alleys, there were ravines and dirt roads. There were rivers, sewers, puddles, craters and margins. There were mountains, there were fields, there were stones and farms. There were cities, streets, pavements, bridges, backyards. There were both intensively populated and uninhabited, wild spaces. As they were descending, as they were acting, the border would metamorphose itself into multiple faces. As they went down, their bodies turned into an extension of the earth, taking its colour, texture and density. The earth was the exteriority that could easily be noticed whenever one would observe the uniforms worn by any of the three: the white of the fabric gave way to earthy tones, the costumes were gradually tinged by the vibrant pigmentation of the soil. There were layers of ochre, orange, brown, beige, red, pink, purple. It should also be mentioned that there were recurrent actions performed on large raw canvas fabrics laid out on the ground. It was a rite of passage, a ritual through which they asked permission to collect the residues of either long buried or non-human memories. Since to belong means not taking it solely for oneself, whatever their hands would carry and whatever their sight could reach consisted of mere particles, stains, superpositions. Or perhaps simply painting.

TECHNICAL INFORMATION

 


Project Title: Divisa
Platform: Online Installation / Website
Project Proponent / Artist: Rubiane Maia
Creative Process / Art Residency [Journey]: Rubiane Maia, Manuel Vason & Tian Maia Vason

Curatorial Supervision: Lindomberto Ferreira Alves
Guest Interlocutors: Gabriela Leandro Pereira & Flavia Gimenes
Images [Photography, Video and 360˚ Device]: Manuel Vason
Educational Material / Organisation: Lindomberto Ferreira Alves & Rubiane Maia

Educational Material / Collaboration: Elton Panamby, Jamile Cazumbá, Maria Luiza de Barros, Renata Segatto & Tatiana Rosa
Translation [Portuguese x English]: Tom Nóbrega
Production / Design: Rubiane Maia

Partner: Matias Brotas Contemporary Art Gallery
Launch Year: 2022

Divisa Project © Rubiane Maia 2022

All content belongs to © Rubiane Maia 2022. Please do not reproduce any of the image or video content on this website without the expressed written consent of Rubiane Maia. In the case of texts, we allow the reproduction of the textual content in part or in whole, provided that the source and author are always cited and without commercial purposes.

Support: Edital Setorial de Artes Visuais 020/2020 - Project involving training, research, exchange, register and memory.

Secretariat of Culture of the Province of Espírito Santo – SECULT/ES

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